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Associação hidroxicloroquina/cloroquina para COVID-19

Muito se tem discutido a respeito do possível benefício da hidroxicloroquina /cloroquina nos casos de prevenção e tratamento precoce da COVID-19 e sua associação com azitromicina nos casos mais graves. Em um estudo publicado no Annals of Internal Medicine, caracterizado por ser duplo cego, randomizado e placebo controlado, 423 pacientes que testaram positivo para o SARS-CoV-2, foram arrolados para receber placebo ou hidroxicloroquina no seguinte esquema: dose única de 800 mg seguido por outra dose de 600 mg, 6 a 8 horas após; depois 600mg diariamente, por 4 ou mais dias. Os resultados mostraram que não houve diferença entre os dois grupos quanto à gravidade dos sintomas, taxa de hospitalização e morte. O grupo que recebeu hidroxicloroquina teve uma incidência significativamente maior de efeitos colaterais, especificamente gastrointestinais: mal estar gástrico, náuseas, dor abdominal e diarreia. Nesse estudo há um importante fator de limitação, que foi a baixa taxa de pesquisa do PCR na população em geral1.
Um segundo estudo controlado e randomizado, multicêntrico e aberto, publicado no Clinical of Infeccious Disease, avaliou casos elegíveis de COVID-19: pacientes adultos não hospitalizados, com infecção recentemente confirmada por SARS-CoV-2 e com menos de cinco dias de sintomas. Os pacientes foram designados para receber hidroxicloroquina (800 mg no dia 1, seguidos por 400 mg uma vez ao dia por 6 dias) ou nenhum tratamento antiviral (obs: não foi um estudo controlado por placebo). As avaliações foram redução da carga viral de RNA nos swabs nasofaríngeos até 7 dias após o início do tratamento, a progressão da doença em até 28 dias e o tempo para concluir a resolução dos sintomas. Um total de 293 pacientes foram elegíveis ao estudo. Não foram encontradas diferenças significativas na redução média da carga viral, nem na redução do tempo para resolução dos sintomas. Diferentemente do estudo anterior, não foram relatados efeitos adversos significativos relacionados ao tratamento2.
Além disso, em uma rápida revisão de literatura3, os autores avaliaram a associação de cloroquina/hidroxicloroquina e azitromicina em pacientes internados com diagnóstico comprovado de COVID-19. A primeira análise foi em relação ao tempo de negativação da carga viral em 3 a 6 dias. O uso de hidroxicloroquina isolada ou em associação com azitromicina não foi significativamente mais eficaz do que sua não utilização. Outra análise realizada foi em relação à mortalidade por qualquer causa. A administração hidroxicloroquina/azitromicina não teve interferência significativa, a despeito de não terem sido realizados ajustes para variáveis confundidoras. Um dos estudos utilizados para essa análise, mostrou uma taxa de mortalidade maior no grupo de que utilizou a associação, embora não tenha atingido significância estatística. Outros estudos avaliaram os efeitos da associação sobre o sistema cardiovascular. Foram observados episódios de parada cardíaca, a presença de arritmias complexas como Torsade de Points, assim como o prolongamento do intervalo QTc. Entretanto, os achados não atingiram significância estatística.
Dessa forma, a SBGG-SP não pode de forma alguma recomendar a utilização da cloroquina / hidroxicloroquina, associada ou não à azitromicina, na prevenção ou tratamento de qualquer fase da COVID-19 em idosos. Principalmente, devemos chamar a atenção para o risco do uso de medicamentos sem qualquer eficácia comprovada, que associados a outros podem gerar efeitos colaterais importantes e eventualmente colocar em risco, principalmente uma população usuária de muitos medicamentos e portadores de diversas doenças, como é a dos idosos.
 
Referências:

  1. Skipper CP, Pastick KA, Engen NW, Bangdiwala, Abassi M, Lofgren SM, Williams DA, Okafor EC, Pullen MF, Nicol MR, PharmD, Nascene AA, Hullsiek KH, Cheng MP, Luke D, Lother SA, MacKenzie LJ, Drobot G, Kelly LE, Schwartz IS, MD, Zarychanski R, MD, McDonald EG, MD, Lee TC, Rajasingham R, Boulware, MD. Hydroxychloroquine in Nonhospitalized Adults With Early COVID-19. A Randomized Trial. Ann Intern Med https://doi.org/10.7326/M20-4207
  2. Hydroxychloroquine for Early Treatment of Adults with Mild Covid-19: A Randomized-Controlled Trial. Mitjà O, Corbacho-Monné M, Ubals M, Tebe C, Peñafiel J, Tobias A, Ballana E, Alemany A, Riera-Martí N, Pérez CA, Suñer C, Laporte P, Admella P, Mitjà J, Clua M, Bertran L, Sarguella M, Gavilán S, Ara J, Argimon JM, Casabona J, Cuatrecasas G, Cañadas P, Elizalde-Torrent A, Fabregat R, Farré M, Forcada A, Flores-Mateo G, Muntada E, Nadal N, Narejos S, Gil-Ortega A, Prat N, Puig J, Quiñones C, Reyes-Ureña J, Ramírez-Viaplana F, Ruiz L, Riveira-Muñoz E, Sierra A, Velasco C, Vivando-Hidalgo RM, Sentís A, G-Beiras C, Clotet B, Vall-Mayans M. Clinical Infectious Diseases, ciaa1009, https://doi.org/10.1093/cid/ciaa1009
  3. Stein C, Falavigna M, Marcolino, MAZ, Pagano CGM, Gräf DD, Matuoka JY, Oliveira Jr HA, Medeiros FC, Brito GV, Marra LP, Parreira PCL, Bagattini AM, Pachito DV, Riera R, Colpani V. Associação hidroxicloroquina/cloroquina e azitromicina para Covid-19. Revisão sistemática rápida. Disponível em: https://oxfordbrazilebm.com/index.php/2020/06/02/associacao-hidroxicloroquina-cloroquina-e-azitromicina-para-covid-19-revisao-sistematica-rapida/. Acessado em 23 de julho de 2020.