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Efeito da atividade física estruturada na prevenção de incapacidade funcional em idosos: Ensaio clínico randomizado-Estudo LIFE

HSPM

Dra. Renata Freitas Nogueira Salles
Médica assistente e coordenadora da Residência de Geriatria e Gerontologia
do Hospital do Servidor Municipal de São Paulo
Presidente da SBGG-SP

Dra. Christiane Mandolesi Vilas Boas
Médica assistente e preceptora da Residência de Geriatria e Gerontologia
do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo

Dra. Josiane de Oliveira Gallego
Médica residente do serviço de Geriatria e Gerontologia
do Hospital do Servidor Público Municipal de São Paulo

 
Tema: Efeito da atividade física estruturada na prevenção de incapacidade funcional em idosos: Ensaio clínico randomizado-Estudo LIFE
Estudo: Effect of Structured Physical Activity on Prevention of Major Mobility Disability in Older Adults. The LIFE Study Randomized Clinical Trial.
Fonte: JAMA. 2014;311(23):2387-2396.
Objetivo: Testar a hipótese de que um programa de exercícios físicos estruturados a longo prazo é mais eficaz que um programa de educação de saúde.
Desenho do estudo: Estudo multicêntrico, duplo-cego e randomizado.
Os idosos (70-89 anos) foram recrutados em comunidades urbanas, suburbanas e rurais em oito centros nos Estados Unidos, no período entre fevereiro de 2010 e dezembro de 2011. O término do estudo ocorreu em dezembro de 2013, sendo de 2,6 anos a participação média de cada idoso no estudo. A amostra foi composta de 1635 homens e mulheres sedentários, que se enquadraram nos seguintes critérios de elegibilidade:

  1. ter idade entre 70-89 anos;
  2. relato de < 20min/semana de atividade física regular no último mês e < 125min/semana de atividade física moderada;
  3. ser de alto risco para incapacidade funcional, com pontuação ≤ 9 de um total de 12 no SPPB (Short Physical Performance Battery);
  4. ser capaz de caminhar 400 metros em menos de 15 minutos, sem sentar-se e sem ajuda de terceiros ou de um andador;
  5. não ter comprometimento cognitivo importante (avaliado pelo Mini-Exame do Estado Mental Modificado);
  6. estar apto a participar da intervenção após análise de história médica, exame físico e ECG de repouso.

 
Os participantes foram randomizados para participar de um programa de atividade física ou de um programa de educação para a saúde. O primeiro grupo (n=818) realizou um programa estruturado de atividade física moderada 2x/semana em um centro e 3-4x/semana em casa, incluindo atividades aeróbicas, de resistência e treinamento de flexibilidade. Já o segundo grupo (n=817) participou de um programa de educação para a saúde, que consistiu de workshops semanais nas primeiras 26 semanas e, após esse período, sessões mensais, com temas relevantes para a população idosa, excluindo-se temas relacionados à prática de atividade física. Este grupo também contou com programa de alongamento de extremidade superior e exercícios de flexibilidade, com duração de 5 a 10 minutos e sob orientação de instrutor especializado.
Os participantes foram avaliados a cada 6 meses em visitas clínicas. Durante todo o acompanhamento, a intervalos variados, foram coletados dados demográficos, histórico médico e de internações, inventário de medicações, ECG, exame físico, questionário de bem-estar, utilização dos serviços de saúde, questionário de avaliação de atividade física para a terceira idade, testes cognitivos, teste da caminhada (SPPB), peso corporal, pressão sanguínea e frequência cardíaca. O desfecho primário de deficiência grave de mobilidade foi definido como incapacidade de caminhar 400 metros em 15 minutos, sem sentar-se e sem ajuda de outras pessoas ou de um andador, sendo aceitável o uso de uma bengala.
Resultados: A idade média dos participantes foi de 78,9 anos, 67,2% eram mulheres, 17,6% eram afroamericanos, o IMC médio foi de 30,2 e a pontuação média na SPPB foi de 7,4.
O grupo atividade física (AF) participou de 63% das sessões regulares após a exclusão de licença médica. Um total de 479 (58,6%) participantes necessitou de licença médica pelo menos uma vez e 210 (25,7%) mais de uma vez. O grupo educação em saúde (ES) participou em média 73 ± 25%. O grupo AF manteve uma média de 218 minutos/semana de caminhada e musculação, com acréscimo médio de 138 minutos em relação à atividade física inicial. Em relação ao grupo ES, a média foi de 115 minutos/semana de atividades físicas, com acréscimo médio de 34 minutos em relação à atividade inicial. Assim, a intervenção atividade física manteve 104 minutos (IC 95% = 92-116; p< 0,001) de diferença em atividades de caminhada e musculação em comparação ao grupo de educação em saúde, durante os primeiros dois anos em que todos os participantes foram acompanhados. Em média, o grupo AF realizou 213min/semana de atividade moderada, enquanto o grupo ES manteve 173 min/semana, sendo a diferença de 40min/semana (IC 95% = 29-52; p< 0,001) durante os dois anos de seguimento.
Foi constatada deficiência grave de mobilidade em 246 participantes (30,1%) do grupo AF e em 290 (35,5%) participantes do grupo ES (IC 95% = 0,69-0,98; p=0,03), imobilidade persistente foi experimentada por 120 participantes (14,7%) no grupo AF e 162 participantes (19,8%) no grupo ES (IC95% = 0,57-0,91; p=0,006).
Eventos adversos graves foram relatados por 404 participantes (49,4%) no grupo AF e 373 participantes (45,7%) no grupo ES (IC 95% = 0,98-1,20). Os motivos de internação foram altamente heterogêneos e a maioria deles sem relação com a intervenção. Os resultados para a deficiência grave de mobilidade não diferiram significativamente quando os participantes foram categorizados por etnia/raça, sexo, história de doença cardiovascular, história de diabetes, velocidade de caminhada basal e desempenho físico basal. O subgrupo com menor função física no início do estudo (SPPB < 8), correspondente a 44,7% da população do estudo e a 71% dos eventos de grande deficiência de mobilidade, recebeu benefício considerável.
Discussão: o estudo LIFE mostrou que a intervenção atividade física em comparação com a intervenção de educação em saúde reduziu significativamente a deficiência grave de mobilidade, a imobilidade persistente e os resultados combinados de deficiência de mobilidade e morte. Estes resultados sugerem o potencial para a atividade física estruturada como uma intervenção viável e eficaz para reduzir a carga de incapacidade entre os idosos vulneráveis.
O estudo LIFE foi o maior estudo e o de mais longa duração sobre atividade física em pessoas idosas. Sua limitação consistiu em não ser capaz de predizer se os participantes que foram excluídos, seja por causa de seu alto nível de função física ou por déficits cognitivos graves, também se beneficiariam de atividade física. Embora o tamanho do efeito tenha sido menor que o esperado, o estudo é clinicamente relevante, pois comprovou que atividade física previne o aparecimento de deficiência grave de mobilidade. Com base em coortes observacionais, esperava-se uma menor taxa de hospitalização no grupo AF, o que não foi visto no estudo LIFE. Houve uma maior taxa de internações neste grupo, porém sem significância estatística. Algumas explicações para este fato foram aventadas:

  1. a atividade física pode ter desmascarados sintomas, resultando em detecção mais precoce de condições médicas subjacentes;
  2. a verificação de sinais vitais em cada sessão pode ter levado a uma maior taxa de reconhecimento de eventos de saúde;
  3. o estresse do exercício no contexto de reserva homeostática reduzida em participantes vulneráveis, pode ter conduzido a um maior risco efeitos adversos.

 
Contudo, os resultados de hospitalização não foram significativamente diferentes entre aqueles com pontuação SPPB < 8 e aqueles com pontuação 8 ou 9. Sendo assim, não pode haver nenhuma associação causal entre a atividade física e ocorrência de hospitalizações. A atividade física não diminuiu a taxa de mortalidade. Houve uma maior taxa de mortalidade no grupo AF que não alcançou significância estatística, tornando os dados relativos à mortalidade inconclusivos. Mais estudos são necessários para avaliar os efeitos da atividade física sobre a mortalidade e internações em idosos vulneráveis.
Conclusão: o estudo LIFE mostrou que durante o tempo de 2,6 anos de acompanhamento, a intervenção atividade física, quando comparada com a intervenção educação em saúde, preveniu significativamente o déficit de mobilidade grave e a imobilidade persistente e, consequentemente, a perda da capacidade funcional dos idosos.
Comentários:
A capacidade funcional reduzida nos idosos é um fator de risco para morbidade, dependência nas atividades diárias, hospitalização e mortalidade. Evidências sugerem que a atividade física pode prevenir a incapacidade funcional e enquanto o prolongamento da expectativa de vida continua a ser um importante objetivo de saúde pública, de um significado ainda maior é a preservação da capacidade de se viver de forma independente e funcional. A identificação de intervenções de eficácia comprovada para prevenir a incapacidade é um importante desafio de saúde pública.