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Pesquisa: alterações cerebrais provocadas por gene ligado ao Alzheimer podem começar na infância

alzheimerO gene que faz com que alguns adultos sejam mais vulneráveis à doença de Alzheimer também afeta o desenvolvimento do cérebro e as habilidades mentais de crianças, segundo um novo estudo.
Pesquisadores que examinaram tomografias cerebrais de 1.187 crianças e adolescentes encontraram padrões distintos no tamanho e na estrutura do córtex, do hipocampo e de outras áreas importantes. Esses padrões foram relacionados a diferentes versões de um gene conhecido como APOE, que pode ser o principal desencadeador em até 25% dos casos de doença de Alzheimer.
O grupo de pesquisa também encontrou relação entre as versões do APOE que cada jovem tinha e seu desempenho em testes para medir a função cognitiva, a memória e a atenção.
Os resultados, publicados no início de julho pela revista Neurology, sugerem que o Alzheimer pode ser muito mais do que uma doença relacionada com a incapacidade do cérebro para limpar placas beta-amilóides. Ao invés disso, talvez seja melhor considerá-lo um transtorno do desenvolvimento.
O gene APOE induz as células a fazerem uma proteína chamada apolipoproteína E. Uma vez sintetizada, essa proteína ajuda a formar as moléculas que transportam o colesterol e os triglicérides pela corrente sanguínea. Essas moléculas também transportam os beta-amilóides para fora do cérebro.
O gene se apresenta em três variedades, conhecidas como variantes e2, e3 e e4. Uma vez que todos herdam uma versão do gene de cada um dos pais, existem seis combinações possíveis. Pessoas com uma – e, especialmente, duas – variantes e4 são significativamente mais propensas a desenvolver a doença de Alzheimer do que as pessoas sem e4. Os pesquisadores também descobriram que os adultos com variantes e2 têm mais placas em seus cérebros, mas são menos propensos a terem sintomas de demência.
Uma equipe liderada pela Dra Linda Chang, diretora do Programa de Pesquisa em Neurociências e do Programa de Pesquisa de Ressonância Magnética na Universidade do Havaí, queria atestar se essas variantes genéticas influenciaram os cérebros das pessoas quando jovens. Então, eles recrutaram indivíduos saudáveis ​com ​idades de 3 a 20 anos de todo o país e os inscreveram no Estudo Genética, Imagem Pediátrica e Neurocognição.
Todas as crianças e adolescentes participantes cederam amostras de saliva para que os pesquisadores pudessem sequenciar seu DNA. Eles foram submetidos a uma série de testes para medir os vários aspectos da função cognitiva, bem como a exames de ressonância magnética para que os pesquisadores pudessem visualizar seus cérebros.
Os pesquisadores descobriram uma variedade grande nas habilidades mentais e na estrutura do cérebro com base na idade das crianças e em sua versão particular do gene APOE. Muitas diferenças se mantiveram mesmo considerando critérios como sexo, ascendência genética, renda familiar e escolaridade dos pais.
Eles descobriram que as crianças com e4/e4, e2 /e2 e e2/ versões e4 do gene APOE mostraram diferentes trajetórias de desenvolvimento do cérebro em comparação a crianças que herdaram pelo menos uma variante e3. As regiões do cérebro afetadas foram as mesmas atingidas frequentemente pela doença de Alzheimer, de acordo com o estudo.
As crianças mais jovens com e2/e4 tinham menos volume no hipocampo, área que ajuda a armazenar informações na memória de longo prazo. Na mesma parte do cérebro, as crianças mais jovens com e4/e4 pareciam ter um menor grau de mielinização, o que impediria a transmissão de sinais entre os neurônios. Ambas condições “espelho” com os cérebros de pessoas idosas com as mesmas variações genéticas, escreveram os pesquisadores.
Os autores do estudo também observaram que as crianças mais jovens com essas duas variantes APOE e desenvolvimento cerebral alterado também têm pontuações mais baixas em testes de memória de curto prazo e de atenção.
Para além de outras diferenças cerebrais, crianças menores com e4/e4 também tinham sinais de desenvolvimento atípico no córtex – comuns de serem vistos em crianças com síndrome alcoólica fetal.
Os autores do estudo fizeram inferências sobre o desenvolvimento do cérebro comparando crianças em diferentes idades. Considerando-se que o desenvolvimento do cérebro pode variar um pouco de pessoa para pessoa, seria importante rastrear cada criança durante um longo período de tempo, eles escreveram. Mesmo com essa ressalva, os resultados do estudo são “extremamente intrigantes”, de acordo com um editorial que acompanha os resultados.
Os resultados “apoiam a ideia provocadora de que a doença de Alzheimer é, em parte, um transtorno do desenvolvimento”, escreveram outros pesquisadores a respeito do trabalho.
Se confirmado, será possível desenvolver tratamentos para crianças com variantes de DNA de alto risco que – décadas mais tarde – podem retardar o aparecimento da doença de Alzheimer, reduzir a sua gravidade ou evitá-la completamente.