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Diretor do filme “Envelhescência” fala sobre inspirações e personagens

Menos de 24 horas após o lançamento do trailer nas redes sociais, Envelhescência já contabilizava quase 35 mil visualizações, mais de 1.200 curtidas e mais de 1.600 compartilhamentos. Dirigido e produzido por Gabriel Martinez, o filme conta a história de seis idosos que se reinventaram em atividades muitas vezes consideradas inusitadas para pessoas com mais de 60 anos e vivem a velhice de maneira saudável e plena.
O documentário intercala os personagens com comentários do cientista Alexandre Kalache, da antropóloga Mirian Goldenberg e do filósofo Mário Sergio Cortella, e sugere uma nova perspectiva sobre o significado do envelhecimento.
Confira a entrevista com o diretor que conta sobre suas inspirações e o processo de desenvolver um filme que propõe um novo jeito de enxergar a velhice.
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De onde veio a inspiração para fazer o documentário?
Em 2012, eu e Ruggero Fiandanese, um amigo que trabalhava comigo e autor do argumento do filme, estávamos pensando em fazer um documentário. Pensamos em cinco temas, entre eles a terceira idade, que eu achei muito interessante. O envelhecimento sempre me instigou. Começamos a pesquisar e nos deparamos com histórias que me emocionaram muito, como a Edmea e o surfe, Oswaldo e as maratonas de corrida, que hoje estão no filme. Assim que me deparei com esses entrevistados, não consegui mais deixar o tema de se reinventar a terceira idade, de ter uma nova iniciativa numa idade mais avançada. O Ruggero teve de deixar o projeto por questões de trabalho. Eu fiquei com o tema sozinho e comecei dar andamento no projeto.
Como foi o processo de produção?
Quando Ruggero deixou o projeto em 2012, quase desisti porque era muito difícil lidar, sozinho, com a produtora, ao mesmo tempo em que precisava pesquisar, escrever o projeto e ver as leis fiscais. Retomei o projeto em 2013, escrevendo e fazendo captação de recursos. Felizmente em 2014 consegui captar o mínimo necessário para bancar o projeto. Foi um período de grande prazer e muita satisfação. Os primeiros quatro meses foram um processo muito legal, porque foi a época de ver e conviver com as pessoas. Foi um prazer fazer o documentário depois de toda a pesquisa.
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Falar da terceira idade nem sempre é fácil. Você acha que uma das dificuldades para levantar os recursos foi o fato de a terceira idade não ser considerado um tema “atraente”?
Acho que não. O tema envelhecimento está sendo muito abordado por várias empresas no mundo inteiro. A Pfizer de Nova York trabalhou com uma série muito parecida sobre a terceira idade. Tentei entrar em contato com eles aqui no Brasil e embora o filme tenha sido bem recebido, eles já haviam destinado o patrocínio para outro projeto. Entrei em contato com muita gente que gostou do tema, mas patrocínio no Brasil é muito disputado hoje em dia, já que está cada vez mais consolidado os meios de incentivos fiscais e quando uma empresa se propõe a patrocinar um projeto, ela automaticamente já não tem verba para apoiar outros. Houve até um fato curioso nesse ano: uma empresa apareceu querendo patrocinar o projeto e eu já estava fechando as contas – para você ver a infelicidade. No ano passado eu quase não consegui captar o dinheiro todo e esse ano tinha empresa interessada procurando.
Como surgiu o título do filme?
O título surgiu em 2012, quando vi uma entrevista com o médico gerontologista Alexandre Kalache, no 50+CBN, em que ele usava o termo envelhescência. Depois eu até falei para ele que assim que escutei o termo, decidi que o título do filme seria esse. Só que aí ele parou de usar envelhescência e começou a usar gerontolescência. Até comentei com ele: “Puxa, peguei o termo por sua causa e agora você usa outro…”.  Ele me explicou depois que mudou por conta das palestras que faz em inglês, já que gerontolescência é mais fácil para traduzir. Pelo que tenho observado, “envelhescência” é diferente de “velhice” e “idoso”. É um termo que remete à decência ou vivência, por isso acho adequado ao filme. Todos que ouviram o termo gostaram, muita gente no Facebook tem elogiado.
Na verdade, a expressão foi usada pela primeira vez por Mário Prata em 1997, que fez um texto chamado “Você é envelhescente?”. Ele usava o termo para representar a passagem dos 40 aos 60 anos, onde acontece a “adolescência” para a velhice (ao invés da fase adulta). Eu gostei do termo, mas não vejo dessa forma, porque se interpretarmos assim, depois dos 60 a pessoa fica velha. Não quis contar isso no filme, mas acho que não chegamos na velhice. Acho que a “Envelhescência” é justamente esse processo de envelhecer, vivenciar, viver, experimentar coisas novas após a idade madura. O Mário Sérgio Cortella até comenta num depoimento do filme que algumas pessoas falam para ele “Professor, decidi estudar depois de velho”, e ele responde “Lamento, mas depois de velho é a morte, depois de velho não existe”. A pessoa não estuda depois de velho, estuda na idade madura. Acho que “Envelhescência” é um pouco disso: viver sua experiência no dia-a-dia aos 60, 70, 80, 100 anos, sem necessariamente chegar num ponto que parece que é o fim. Se eu fosse interpretar o Mario Prata ao pé da letra, nenhum dos personagens do filme são envelhescentes, porque todos têm mais de 60 anos, enquanto para Mario Prata só se podia “envelhecer” até os 60. Eu quis empurrar o termo para uma coisa mais abrangente, sem tom final. Nossa velhice não deve ser interpretada como um fim.
Como foram escolhidos os seis personagens?
Quis selecionar personagens em séries diferentes, para não repetir as atividades. Por exemplo, não queria colocar mais de uma pessoa acima de 60 anos praticando paraquedismo. Mas também é preciso ver o todo da pessoa – o Schirmer, como um todo, era forte como personagem. O Schirmer (Luiz Schirmer, um dos paraquedistas mais idosos do Brasil e um dos personagens do filme), por exemplo, parece um menino de 18 anos, porque tem uma energia, um senso de humor e uma animação maior que toda a equipe. Todo mundo era muito mais novo que ele e ele era muito mais disposto e muito mais alegre que todos nós. Ele é animado, não para quieto, não demonstra preguiça. É um caso óbvio e direto de que a idade está na nossa cabeça.
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Alguém na área de estudos também era importante, para que não ficássemos limitados ao esporte. Escolhi o Edson Gambuggi, que se formou em medicina aos 82 anos. Quis pegar atividades diferentes umas das outras, para que houvesse mais influência para quem assistisse. Escolhi os personagens pensando em ampliar o leque de possibilidades, para que as pessoas que assistissem pudessem se inspirar e ter suas próprias iniciativas.
Pessoalmente, o que você aprendeu com esses personagens e essa produção?
Mudei a forma de encarar a vida no nosso cotidiano e aprendi que não temos data para começar a fazer algo. Você vê Dona Judith cheia de tatuagens, na rua, todo mundo se encanta com ela. Encarar a vida com alegria, disposição e felicidade a cada dia está na nossa cabeça. Hoje eu me vejo através dos personagens e me imagino com 60 anos, pulando de paraquedas ou correndo maratonas. Não me enxergo parado, triste ou desanimado perante o envelhecimento.
Qual sua expectativa para o lançamento?
Tento não criar expectativas, porque a expectativa é um perigo para qualquer ser humano. Mas eu torço para que o filme tenha uma repercussão bacana, como o que está acontecendo agora com o trailer. Espero que o filme possa servir como uma válvula incentivadora para não ver o envelhecimento de uma maneira negativa.
Por Fernanda Figueiredo