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HIV em idosos

85501065A infecção pelo vírus HIV ainda permanece coberta por preconceitos e estereótipos, ainda que hoje a ideia de grupos de risco não tenha mais validade. O estigma da AIDS ainda é pesado e relacionado a promiscuidade sexual, sexo sem proteção e uso de drogas injetáveis. Fatores que, no imaginário da população em geral, não combinam com senhores e senhoras com mais de 60 anos.
Mas, justamente por não haver mais grupos de risco quando se fala em HIV e, sim, em comportamento de risco, a AIDS tem chegado com frequência aos lares dos idosos. A maior longevidade da população, o aumento da qualidade de vida na terceira idade e a recusa quanto ao uso de preservativos tem provocado um aumento de casos acima dos 50 e dos 60 anos. “Além de ser uma geração que não tem a cultura do uso de preservativos, as mulheres, após a menopausa, já que não se preocupam mais com gravidez, não usam e nem exigem o uso porque não pensam nas doenças sexualmente transmissíveis”, diz a médica Gisele Cristina Gosuen, mestre em Ciências e responsável pelo Ambulatório HIV e Envelhecer, da Disciplina de Infectologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).
No ambulatório que coordena, Gisele vê muitos idosos que convivem há anos com o HIV, mas é cada vez mais comuns novos pacientes que receberam o diagnóstico na terceira idade. E, pior: normalmente o diagnóstico do HIV em idosos é bem tardio. Segundo o Boletim Epidemiológico Aids e DST publicado em 2015 pelo Ministério da Saúde, na faixa acima dos 60 anos é que se concentra a maior proporção de diagnóstico tardio. Do total dos casos descobertos muito depois da infecção, 38,1% são de idosos, contra 11,9%, por exemplo, na faixa entre 18 e 24 anos.
“Esse retardo no diagnóstico acontece por causa da maneira como a sociedade enxerga o idoso, imagem que passa muito longe daquela de um soropositivo”, diz a médica. Por isso, quando chegam ao Ambulatório, os pacientes já rodaram por muitos prontos-atendimentos e consultórios. “Entendo que pode ser complicado abordar questões epidemiológicas em um primeiro contato porque o assunto sexo e drogas é tabu. Além disso, o idoso normalmente vai à consulta acompanhado por filho ou companheiro”, explica.
No entanto, a taxa de infecção na terceira idade só cresce. Dados do Ministério da Saúde apontam 80% de crescimento nos casos notificados de idosos entre 2001 e 2012. “Sempre brinco que não se pode subestimar o vovô e a vovó que tem em casa. E os médicos precisam se despir do preconceito em relação a essa população e incorporar a sorologia para HIV, hepatite B e C e sífilis na prática clínica diária, do mesmo modo que se pede uma glicemia ou hemograma”, defende a médica.  Em março, o Conselho Federal de Medicina (CFM) emitiu uma recomendação para que essas sorologias sejam incluídas nos pedidos de sangue de praxe, a exemplo do que acontece nos Estados Unidos e Europa.
Agravantes do HIV com o envelhecimento
A AIDS – síndrome da imunodeficiência adquirida – tem efeitos mais complicados no organismo do idoso. Essa população, assim como os bebês, já é imunossuprimida por causa da idade. “Por isso não é raro descobrir o HIV quando o paciente já está bastante debilitado e com alguma doença relacionada à AIDS”, diz a médica. Mais uma razão da importância da detecção precoce: não esperar o indivíduo adoecer para começar o tratamento e tentar baixar a carga viral.  “Isso melhora a condição de vida e diminui o risco de transmissão”.
Além disso, há que se considerar que o portador de HIV, independentemente da idade, já tem o envelhecimento biológico mais precoce – como se as células envelhecessem mais rápido nessa população do que na não infectada. “Esse envelhecimento gira em torno de 10 a 15 anos. Portanto, um idoso com 60 anos infectado com HIV tem, celularmente, uns 75 anos”, explica Gisele.
Isso significa que as doenças próprias do avançar da idade acometem os pacientes HIV positivo mais precocemente. Entre elas estão diabetes, dislipidemia, risco de AVC mais precoce e eventos cardiovasculares. “Hoje, o principal desafio para os infectologistas tem sido o de lidar com as comorbidades próprias do envelhecimento, já que a população HIV positiva também tem vivido por mais tempo, chegando à terceira idade, graças à evolução no tratamento com antirretrovirais”, explica a médica.