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O paciente idoso no tratamento do câncer

Com a inversão demográfica e mais pessoas vivendo com mais de 65 anos, prevê-se o aumento na prevalência dos casos de câncer. No entanto, os pacientes idosos são sub-representados e mesmo discriminados no tratamento das doenças oncológicas.
Comorbidades em pacientes com 65 anos ou mais podem impedir sua inclusão em ensaios clínicos de câncer. Uma análise  quantificou esse fato: as pessoas nessa faixa etária representaram apenas 29% dos pacientes incluídos em testes de câncer de cólon e 15% daqueles em testes de câncer de mama. Além de fatores clínicos, os não clínicos podem contribuir para essa discrepância. Outro estudo mostrou maiores disparidades de idade entre os participantes do estudo e a população com maior incidência da doença em ensaios com patrocínio da indústria do que naqueles não patrocinados pela indústria – um viés que poderia levantar o argumento de que os resultados desses estudos são mais positivos sem os idosos e as comorbidades.
Quando a seleção do paciente é tão rigorosa, questiona-se se a população do estudo é representativa. Os ensaios são tipicamente afetados por conta de seus voluntários saudáveis – as pessoas inscritas nos ensaios são muitas vezes mais saudáveis ​​e têm menos comorbidades do que a população em geral, apesar de terem câncer. Esses pacientes também podem ser mais instruídos e ter maior status socioeconômico. Acrescente a isso um limite de idade rígido e a população do estudo torna-se distinta da população do mundo real. Os resultados de tais testes podem ser verdadeiramente representativos do paciente médio com câncer? Por exemplo, embora a incidência de câncer colorretal esteja aumentando em pessoas mais jovens, com uma idade média de início de 68 anos em homens e 72 anos em mulheres, um limite superior padrão de 65 anos pode levar à exclusão de muitos casos diagnosticados, deixando uma população atípica com uma forma da doença de início precoce e talvez mais agressiva. Tratamentos desenvolvidos em tal população podem ser inapropriados para pacientes idosos. Portanto, deveriam ser usados critérios de idade para inclusão em ensaios dependentes e relevantes para o tipo de câncer em questão.
Outra questão que se apresenta são evidências que sugerem que os idosos estão cada vez mais passando por cirurgias mais complexas e de alto risco. O número de ressecções abdominais superiores feitas em octogenários com câncer (entre 80 e 89 anos) cresceu entre 2001 e 2011, apesar do aumento do risco de morbidade. A fragilidade em pacientes idosos que necessitam de cirurgia prediz mortalidade, complicações e tempo de internação no pós-operatório. A escolha do paciente pode ser um fator no aumento da incidência de cirurgias complexas, por isso é vital que os riscos e benefícios de todas as opções clínicas sejam claramente comunicados aos pacientes, especialmente aqueles com maior risco de complicações, para que a melhor escolha seja feita para cada indivíduo independentemente da idade cronológica.
Com sub-representação em ensaios de um lado da balança, e potencial uso excessivo de cirurgia de outro, o cenário ideal para pacientes idosos encontra-se em algum lugar no meio. Os requisitos únicos desta população mais velha de pacientes com câncer precisam ser reconhecidos. Cada vez mais, médicos estão percebendo que o uso da idade cronológica, criado arbitrariamente por normas sociolegais, pode ser pouco representativo do estado de saúde de um indivíduo. Ao invés disso, os profissionais estão optando por ferramentas de avaliação geriátrica para analisar a saúde de pacientes idosos antes de informar sobre o tratamento do câncer. Diretrizes clínicas de organizações como a International Society of Geriatric Oncology fornecem orientação para aqueles envolvidos no cuidado de pacientes idosos com câncer. A American College of Surgeons’ Coalition for Quality in Geriatric Surgery também desenvolveu um novo programa de verificação de cirurgia geriátrica, que estabelece padrões que os hospitais devem cumprir para melhorar os resultados cirúrgicos para pacientes mais velhos.
Essas inovações são um sinal bem-vindo do foco e do reconhecimento necessários das necessidades dos pacientes mais velhos.
 
(Texto baseado em tradução do Editorial da The Lancet, julho de 2019 – https://doi.org/10.1016/S1470-2045(19)30427-9)