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Pensando em alternativas

A expectativa de vida no Brasil passou de 74,6 anos em 2012 para 74,9 anos em 2013, segundo os últimos dados do IBGE. Num contexto de grandes mudanças sociais, culturais e econômicas, a população idosa só tende a aumentar e com ela, cresce também a demanda por serviços que acomodem as necessidades da terceira idade.
Uma das questões mais prementes nesse novo contexto são os cuidados com o idoso quando ele estiver incapacitado de viver de maneira independente. Entre outros fatores, a mudança nos papeis entre homens e mulheres vem obrigando a sociedade a repensar esse tópico: antes responsável pelas funções de cuidado, a mulher hoje está inserida no mercado de trabalho e impossibilitada de desempenhá-las.
Nesse cenário cresce a importância das instituições de longa permanência (ILPIs), termo cunhado pela Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) para designar o tipo de instituição previamente conhecida como abrigo, asilo, lar, casa de repouso ou clínica geriátrica. A substituição pela nova expressão também tem o objetivo de desvincular o preconceito que vêm com os termos antigos.
Segundo o documento da SBGG, as ILPIs “são estabelecimentos que prestam atendimento integral institucional para pessoas com 60 anos ou mais, dependentes ou independentes, que não dispõem de condições para permanecer em seu domicílio ou com a família. Elas devem proporcionar serviços na área social, médica, de psicologia, de enfermagem, fisioterapia, terapia ocupacional, odontologia e outras, a depender das necessidades do perfil dos pacientes.”
Dados da Agência de Vigilância Sanitária (Anvisa) mostram que, em 2010, havia 3.549 instituições de longa permanência no Brasil, a maioria de natureza filantrópica, que abrigavam cerca de 100 mil idosos.
Escolhendo uma ILPI
O funcionamento das ILPIs no Brasil é regulado por uma série de normas e leis especificamente estabelecidas. Em setembro de 2005, a Diretoria Colegiada da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) aprovou a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 283, considerando a necessidade de prevenção e redução dos riscos à saúde aos quais ficam expostos os idosos residentes em ILPIs e os critérios mínimos para funcionamento e avaliação.
Não são raros os casos de ILPIs fechadas pelo não cumprimento dos requisitos de funcionamento. Apenas no estado de São Paulo, desde o início deste ano foram noticiadas a interdição de instituições em Ribeirão Preto, Bauru, Osasco, Itapecerica, além da capital, devido a irregularidades como excesso de residentes, falta de higiene, comida em más condições, falta de profissionais, entre outros.
Diante desse quadro, escolher uma ILPI adequada é o principal desafio enfrentado por familiares que não podem mais cuidar de seu idoso, especialmente pela falta de informação que cerca o assunto.
Para Cleofa Toniolo, diretora de atenção ao cliente do Residencial Toniolo e psicóloga do Ambulatório de Cuidadores da disciplina de Geriatria e Gerontologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a falta de uma boa estrutura na maioria das instituições provoca uma reação negativa na família.
“Na hora em que o brasileiro faz visitas às instituições, ele se depara com um visual desagradável, que cria uma resistência para deixar o idoso. Na Europa ou nos Estados Unidos, a própria pessoa, quando começa a perceber que não está bem, procura um lugar, porque sabe que existe uma hospitalidade acolhedora e adequada, o que não acontece sempre aqui”, ela explica.
Cleofa recomenda que, antes de mais nada, é preciso observar os requisitos básicos de funcionamento de uma boa ILPI: atendimento médico apropriado, limpeza adequada, alimentação bem cuidada.
Segundo ela, entre os principais problemas nas ILPIs encontram-se falta de mão de obra adequada e treinada para funções como cozinha, limpeza e banho. “Com o custo elevado, esse é um dos primeiros itens que os responsáveis pelas instituições acabam cortando. Por falta de recursos e investimentos, peca-se pela falta de adaptação e higiene adequada”, diz Cleofa.
Entre os itens que devem ser observados na escolha de uma ILPI incluem-se a aparência da residência, as condições dos espaços comuns, o preparo e profissionalismo da equipe, os quartos dos residentes, a adaptação de corredores, escadas e banheiros, nutrição e refeições, atividades e segurança.
Vencendo preconceitos
A decisão de institucionalizar não é fácil, mas por vezes pode ser libertadora, quando a família percebe que não tem mais condições de cuidar de seu idoso. No ano passado, a professora universitária Teresa Barreto, filha única, tomou a decisão de colocar sua mãe, Zelinda Milani Cristófani, de 86 anos, numa casa de repouso. Dona Zelinda tem demência senil.
“Foi uma decisão muito difícil, porque nunca esteve no meu horizonte institucionalizar minha mãe. Venho de uma família italiana e a vida inteira tivemos muito preconceito, tanto em relação às instituições, quanto em relação aos filhos que tomavam essas decisões”, conta.
Teresa começou a pensar nessa possibilidade quando percebeu que a estrutura de empregada e cuidadoras não estava funcionando e teve que, por algum tempo, assumir os cuidados de dona Zelinda. Durante esse tempo, a professora percebeu que a mãe não a reconhecia mais. Também não reconhecia mais a própria casa, nem sua poodle, Kika, com quem convivia há anos. Nas dificuldades da rotina, a ILPI surgiu como alternativa. Depois de conversar com pessoas de confiança, decidiu que era a melhor opção, tanto para ela, quanto para dona Zelinda.
“Chorei muito, tive que vencer toda minha resistência, meus preconceitos, minha formação. Mas confesso que me senti um pouco mais aliviada quando tomei a decisão. O passo seguinte era escolher uma instituição”, recorda.
Hoje existem instituições no Brasil que dispõem de instalações adequadas e equipe multiprofissional com formação gerontológica, permitindo um desenvolvimento satisfatório no atendimento aos idosos. Teresa visitou alguns lugares, avaliou as instalações físicas e a equipe. Um dos principais critérios para sua escolha era a localização: a instituição tinha que ser perto de onde morava, para que ela pudesse estar presente na vida de dona Zelinda. Teve a sorte de encontrar uma ILPI que preenchia seus requisitos a sete quadras de sua casa, o que possibilita que ela visite sua mãe todos os dias.
Para o consultor Sérgio Miraglia, o critério de escolha para a mãe, Emília Orlan Miraglia, de 84 anos, foi diferente. Por ter sofrido dois AVEs, dona Emília tem dificuldades para falar e andar, o que acabou por requerer os serviços de cuidadoras. Os conflitos entre ela e as cuidadoras, no entanto, chegou num nível considerado “estressante para ambos os lados”.
Ele e o irmão optaram por uma ILPI que oferecesse, além dos serviços considerados obrigatórios, o que ele chama de “mordomias”: cabeleireiro, manicure e outras atividades que a deixem mais confortável. Depois de algumas visitas e indicações, decidiram por uma clínica mais afastada de onde moram, mas com todos os recursos que julgavam necessários. Apesar disso, dona Emília ainda tem dificuldade de aceitar a situação e sente falta do bairro da Consolação, em São Paulo, onde morava.
“Falamos ‘Mãe, a senhora vai ficar lá só por um período, para fazer um teste’. Ela não aceitava… Fomos conversando com ela, explicando que era melhor ficar lá, porque ela tinha atendimento médico, pessoas com quem conversar, não precisava se preocupar com supermercado, comida, roupa. Hoje ela está melhor. Às vezes tem uns probleminhas, briga com uma outra residente, mas devagar vai caminhando”, conta Miraglia.
Para a psicóloga Cleofa, procurar uma casa de repouso é um pouco parecido com procurar uma escola para o filho. “Você vai procurar e decidir com base nos seus anseios e necessidades e com base naquilo que você vê na instituição. O que percebemos quando as pessoas visitam uma ILPI é uma empatia com o lugar, com a pessoa que está atendendo. O importante é se sentir acolhida. Muitas vezes você pode acertar, outras vezes pode errar, mas é assim com qualquer escolha que você faz”, diz.
Por Fernanda Figueiredo