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Ressonância magnética pode mostrar áreas cerebrais ligadas à habilidade de perder dinheiro

Brain_lobesÉ comum que idosos sejam alvos fáceis de abuso financeiro, e aqueles com doença de Alzheimer ou outros distúrbios cognitivos são especialmente vulneráveis. Para saber mais sobre as competências financeiras dos idosos, cientistas financiados pelo National Institute on Aging (NIA), nos Estados Unidos, estão usando imagens do cérebro para explorar as regiões e as conectividades associadas à capacidade de gerenciar dinheiro.
Esses estudos utilizaram imagens de ressonância magnética para identificar as áreas cerebrais que podem estar associadas a uma redução da capacidade para lidar com assuntos financeiros. Os resultados oferecem aos pesquisadores novos insights sobre as mudanças no cérebro por causa do envelhecimento e que podem ser vinculadas a decisões financeiras erradas e até mesmo arriscadas.
“É um problema da ordem de 18 trilhões de dólares”, diz Daniel Marson, professor doutor em Neurologia da Universidade de Alabama, citando uma estimativa da riqueza detida por adultos acima dos 65 anos de idade nos Estados Unidos. “Esse dinheiro está em risco, em parte, por conta das desordens cognitivas relacionadas ao envelhecimento.”
Idosos perdem pelo menos 2,9 bilhões de dólares por ano por conta de fraudes, golpes, roubos e outros crimes, de acordo com o Estudo MetLife, de 2011. Ainda, uma pesquisa realizada em 2016 pelo Investor Protection Trust, uma organização sem fins lucrativos voltada para a educação de investidores, mostra que 17% das pessoas acima de 65 anos são abusadas financeiramente.
E é justamente para entender melhor como as variáveis idade e Alzheimer, relacionadas com mudanças na estrutura e função do cérebro, podem influenciar o comportamento, a aprendizagem e a tomada de decisões, incluindo as financeiras, é que os cientistas estão usando as imagens do cérebro.
“Novos estudos em neuroimagem, juntamente com pesquisas envolvendo métricas cognitivas, estão fornecendo dados intrigantes sobre por que idosos, mesmo aqueles que antes eram bastante esclarecidos sobre finanças, podem perder sua habilidade em gerenciar o dinheiro”, explica Nina Silverberg, doutora e diretora do Centro de Doença de Alzheimer da Divisão de Neurociências da NIA.
“Essas novas descobertas acrescentam ao nosso crescente entendimento sobre as mudanças biológicas básicas envolvidas no aparecimento de demências estabelecidas e em progressão, bem como alimentam nossos esforços para encontrar intervenções eficazes. Estudos desse tipo também nos ajudam a saber mais sobre as mudanças cognitivas gerais associadas ao envelhecimento”, completa.
Avaliação da capacidade financeira
A capacidade financeira é necessária para que um adulto viva de maneira independente. Ela engloba tarefas relativamente simples, tais como conferir o troco e pagar contas, e atividades mais complexas, como balanço financeiro e decisão de investimentos. Essas tarefas exigem funções cognitivas que incluem habilidades de matemática, memória, atenção, função executiva e julgamento.
Não é surpresa que pessoas com a doença de Alzheimer e demências relacionadas têm pouca capacidade financeira e podem não ser capazes de gerenciar seu dinheiro por conta própria. Na verdade, ter problema em administrar seu próprio dinheiro, muitas vezes, já é um sinal precoce da doença. Assim como outras habilidades funcionais, não se perde a capacidade financeira de uma só vez – ela vai declinando gradualmente à medida que o Alzheimer progride e a cognição, incluindo a capacidade de pensar, aprender e lembrar, vai diminuindo.
Os cientistas têm estudado, nos últimos anos, os idosos sem demência para identificar e medir o papel do cérebro em vários aspectos da capacidade financeira para tentar prever quem poderá começar a ter sua capacidade reduzida. Os resultados sugerem que os idosos, mesmo cognitivamente normais, podem estar em risco de tomar uma má decisão financeira em algumas circunstâncias.
Os pesquisadores usam geralmente modelos laboratoriais, como aqueles que avaliam o mecanismo de recompensas e de tomada de decisão e risco, ou ainda medidas neuropsicológicas, como o Instrumento de Avaliação da Capacidade Financeira (FCI, em inglês), para avaliar as habilidades de tomada de decisão em idosos. A FCI testa habilidades como a leitura de um extrato bancário, pagamento de contas, e de como a pessoa faz uma avaliação de suas finanças. Agora, os pesquisadores estão usando exames de ressonância magnética estrutural para procurar áreas do cérebro que podem estar envolvidas na redução da capacidade financeira, como elas se degradam ao longo do tempo, e como interferem em todo o espectro cognitivo dos idosos.
“As imagens estão aprofundando nossa compreensão científica sobre o cérebro”, diz Marson. “A ressonância magnética nos ajuda a entender como as mudanças na estrutura e na conectividade do cérebro levam a uma queda das alterações funcionais na vida cotidiana. Por exemplo, quando uma pessoa tem problemas para ler um extrato bancário, uma ressonância magnética pode revelar aspectos da estrutura do cérebro associada a essa questão específica”.
“Assim como a neuroimagem é usada como um biomarcador no início da doença de Alzheimer, pode-se imaginar pesquisadores usando ressonância magnética para desenvolver biomarcadores para o prejuízo na tomada de decisão financeira”, disse Duke Han, professor doutor de Medicina Familiar, Neurologia e Psicologia da Universidade do Sul da Califórnia, em Los Angeles, Estados Unidos. “Teoricamente, os cientistas podem encontrar formas de reforçar o cérebro para manter os idosos com suas capacidades para decisões financeiras em dia, deixando-os menos propensos a serem vítimas de abuso financeiro.”
Ligando resultados da ressonância magnética à capacidade financeira
Os pesquisadores usaram diferentes tipos de ressonância magnética para ver qual e como a estrutura do cérebro, a função e a conectividade referem-se à capacidade financeira. Até agora, nenhuma região ou atividade se destacou.
Em um estudo inicial, Marson e seus colegas descobriram que idosos com comprometimento cognitivo leve tiveram um pior desempenho nos testes cognitivos e no Instrumento de Avaliação da Capacidade Financeira do que o grupo controle. Seu desempenho foi moderadamente associado com o volume do giro angular, uma estrutura do cérebro envolvida no processamento de números, cálculos e outros processos. Mudanças no volume no giro angular podem predizer déficits de habilidades financeiras em pessoas com alterações cognitivas leves relacionada com a memória, concluíram (Griffith et al., 2010).
Em um estudo de acompanhamento, Marson e sua equipe descobriram que o volume reduzido do córtex frontal medial, uma região do cérebro envolvida na atenção e em tarefas cognitivamente exigentes, foi associado com a diminuição de desempenho nas habilidades financeiras em pessoas com a doença de Alzheimer leve (Stoeckel et al., 2013).
Com base nesses estudos, uma equipe da Rush University Medical Center, de Chicago, descobriu que uma maior literacia financeira – conhecimento conceitual e habilidades numéricas que podem apoiar a capacidade financeira – foi associada com maior conectividade funcional entre o córtex cingulado posterior e três outras regiões do cérebro em idosos sem demência (Han et al., 2014). Eles usaram a ressonância magnética funcional em estado de repouso, que mostra a conectividade funcional entre regiões do cérebro. Os pesquisadores não conseguiram discernir se uma melhor literacia financeira fortalecia essas conexões cerebrais, ou se indivíduos com conexões cerebrais fortes foram de alguma forma mais alfabetizados financeiramente do que aqueles com conexões mais fracas.
Em outra pesquisa, a mesma equipe descobriu que os idosos sem demência que estavam suscetíveis a fraudes financeiras, como ficou demonstrado por meio de um breve questionário – tinham menor volume de substância cinzenta total e menos massa cinzenta nos lobos frontal e temporal (Han et al., 2016). “Mais pesquisas são necessárias para determinar se a redução de substância cinzenta nessas regiões pode ser um biomarcador para a susceptibilidade a fraudes na terceira idade”, escreveram os autores.
O que vem pela frente?
O uso de neuroimagem para compreender melhor as alterações cerebrais relacionadas à diminuição da capacidade financeira é uma área de pesquisa promissora. Ainda é muito cedo para saber se e como tais medidas podem ser aplicadas em um ambiente clínico, mas os pesquisadores estão ansiosos para explorar o seu potencial.
“Podemos desenvolver uma neurociência da capacidade financeira? Quais são as regiões do cérebro e redes que suportam diferentes tipos de habilidades financeiras? “, se questiona Marson.
Já Han afirma esperar que novos conhecimentos ajudem nos esforços para melhor manter e até melhorar a capacidade financeira com a idade e com os desafios cognitivos, não apenas prever declínio. Em última análise, as intervenções para fortalecer ou proteger certas regiões do cérebro podem fornecer suporte necessário para as habilidades funcionais, tais como a tomada de decisão financeira.
Referências
Griffith HR, et al. Magnetic resonance imaging volume of the angular gyri predicts financial skill deficits in people with amnestic cognitive impairmentJournal of the American Geriatrics Society 2010;58:265-274.
Han SD, et al. Financial literacy is associated with medial brain region functional connectivity in old age. Archives of Gerontology and Geriatrics 2014;59(2):429-438.
Han SD, et al. Grey matter correlates of susceptibility to scams in community-dwelling older adults.Brain Imaging and Behavior 2016;10(2):524-532.
Stoeckel LE, et al. MRI volume of the medial frontal cortex predicts financial capacity in patients with mild Alzheimer’s disease. Brain Imaging and Behavior 2013;7(3):282-292.
 
Para ler o artigo original em inglês, clique aqui.