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Cuidados paliativos no paciente com demĂȘncia avançada: o que precisamos saber?

  • 25 de fev. de 2016
  • 4 min de leitura

Estima-se que o nĂșmero de pessoas com demĂȘncia no mundo todo serĂĄ superior a 35 milhĂ”es em 2050, segundo estudo do periĂłdico Alzheimer Disease International. A demĂȘncia Ă© um grupo de sintomas graves o suficiente para interferir com o funcionamento diĂĄrio do indivĂ­duo, incluindo perda de memĂłria, dificuldades de comunicação, mudança de personalidade e incapacidade para raciocinar. A doença de Alzheimer Ă© a forma mais comum de demĂȘncia, seguida da demĂȘncia vascular e fronto-temporal. As sĂ­ndromes demenciais evoluem de forma a modificar a capacidade do indivĂ­duo de realizar suas atividades cotidianas. Nas fases mais leves da doença, as atividades podem ser realizadas apenas com supervisĂŁo. Com o avançar do quadro clĂ­nico, a dependĂȘncia funcional torna-se cada vez mais evidente.

Consideramos que um indivĂ­duo estĂĄ em fase avançada de um quadro demencial quando hĂĄ comprometimento cognitivo severo, caracterizado por inabilidade para caminhar, dificuldade de deglutição, perda de apetite, perda de peso, incontinĂȘncia fecal e urinĂĄria com dependĂȘncia completa atĂ© mesmo para as atividades mais simples (levar alimentos Ă  boca, por exemplo), com consequente restrição ao leito. Seja qual for a etiologia da demĂȘncia, todas tĂȘm em comum um aspecto fundamental: sĂŁo doenças crĂŽnicas, degenerativas, progressivas e, atĂ© o momento, sem cura. IndivĂ­duos que convivem ou cuidam desses pacientes precisam ser orientados quanto Ă  evolução da doença para melhor entender os detalhes de cada fase e compreender atĂ© que ponto haverĂĄ resposta a tratamentos e intervençÔes. O que precisamos saber sobre cuidados paliativos? Segundo a Organização Mundial de SaĂșde, "cuidados paliativos consistem na assistĂȘncia promovida por uma equipe multidisciplinar, que objetiva a melhoria da qualidade de vida do paciente e seus familiares, diante de uma doença que ameace a vida, por meio da prevenção e alĂ­vio do sofrimento, da identificação precoce, avaliação impecĂĄvel e tratamento de dor e demais sintomas fĂ­sicos, sociais, psicolĂłgicos e espirituais". Paliar, diferentemente do que muitos acreditam, nĂŁo Ă© apenas promover cuidados nas Ășltimas horas ou dias de um indivĂ­duo em seu leito de morte. A paliação consiste na abordagem precoce de todo e qualquer sintoma ou demanda (seja clĂ­nica, emocional, espiritual) que possa surgir ao longo da trajetĂłria de um indivĂ­duo diagnosticado com uma doença incurĂĄvel. Quando abordar cuidados paliativos nas demĂȘncias? Esse tema deve ser abordado desde o inĂ­cio do diagnĂłstico, assim que o profissional de saĂșde sentir que hĂĄ vĂ­nculo de confiança suficiente para respostas sinceras e sem desconforto por parte dos envolvidos. Perguntas como “ Quando o senhor estiver dependente, quem gostaria que respondesse por vocĂȘ?” ou “Caso haja uma piora clĂ­nica irreversĂ­vel, o senhor gostaria de ser submetido a tratamentos invasivos sem que haja evidĂȘncia de melhora clĂ­nica?” devem ser feitas tĂŁo logo exista um bom vĂ­nculo entre paciente, famĂ­lia e equipe. Dessa forma, quando chega o momento de uma doença em fase avançada, todos sabem exatamente quais os desejos do paciente e de sua famĂ­lia, sem que se tomem decisĂ”es por impulso ou impensadas. Como saber se a pessoa com demĂȘncia se encontra em estĂĄgio avançado com indĂ­cios de final de vida? Pneumonia e outras infecçÔes, bem como problemas alimentares, sĂŁo as principais causas de morte desses indivĂ­duos. Todas elas sĂŁo consequĂȘncias diretas do estado de dependĂȘncia funcional completa e imobilidade decorrentes da prĂłpria demĂȘncia. Por conta disso os pacientes em estĂĄgio avançado das demĂȘncias podem apresentar:

  • DĂ©ficit de memĂłria profunda, de tal forma que eles nĂŁo reconhecem familiares prĂłximos

  • Dificuldade para se comunicar (falam menos do que seis palavras)

  • IncontinĂȘncia urinĂĄria e/ou fecal

  • Trofias e contraturas musculares

  • InfecçÔes recorrentes

  • Úlceras de pressĂŁo

  • Falta de ar

  • Aspiração de conteĂșdo de orofaringe

Por que sĂŁo importantes os cuidados paliativos neste contexto?

No estudo do grupo coordenado por Susan Mitchell, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, muitos pacientes com demĂȘncia em fase avançada sĂŁo submetidos a intervençÔes de benefĂ­cio questionĂĄvel nos Ășltimos trĂȘs meses de vida, levando a maior sofrimento do paciente e da famĂ­lia sem que haja benefĂ­cio para melhora da qualidade ou do tempo de vida. Segundo seus estudos, isso poderia ser evitado se os familiares:

  • Questionassem a utilidade de determinado tratamento;

  • Recebessem orientaçÔes sobre as possĂ­veis complicaçÔes clĂ­nicas de determinados procedimentos,

  • Escolhessem junto com os profissionais de saĂșde a melhor forma de promover o bem- estar da pessoa com demĂȘncia em fase avançada.

Esforços nunca devem ser medidos no sentido de promover melhora da qualidade de vida e de cuidados no final da vida de qualquer indivĂ­duo. No caso dos pacientes com demĂȘncia avançada, por nĂŁo poderem mais exprimir seus desejos, cabe Ă  famĂ­lia e Ă  equipe de saĂșde a tomada de decisĂ”es que promovam conforto e dignidade. Nesse sentido, clarificar as dĂșvidas com a equipe assistente Ă© a melhor ferramenta para o cuidado da pessoa com demĂȘncia e seus familiares.  

Gislaine Gil

- Neuropsicóloga pelo Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo; mestre em gerontologia social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo; membro da diretoria da SBGG Seção São Paulo; fundadora do Vigilantes da Memória

Ana Beatriz G. Di Tommaso

- MĂ©dica Geriatra; especialista pela SBGG e da ComissĂŁo Nacional de ResidĂȘncia MĂ©dica - CNRM; preceptora do AmbulatĂłrio de Longevos da Disciplina de Geriatria e Gerontologia da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de SĂŁo Paulo (EPM/Unifesp); vice-supervisora do Programa de ResidĂȘncia MĂ©dica em Geriatria e Gerontologia da EPM/Unifesp  

 
 
 

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